quinta-feira, 15 de junho de 2023

CARTA A UMA PROCURADORA INSATISFEITA COM O SALÁRIO - Gilberto Cardoso dos Santos

 Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=hZCLAdeYEyk



Cara procuradora:

 

O dia de ontem para mim foi bem desagradável. Eu estava preocupada com alguns débitos, tentando estabelecer prioridades entre eles. O atraso de minha aposentadoria também tem sido uma dor de cabeça e ontem, em particular, me causou profunda angústia devido trâmites burocráticos.

E foi exatamente quando estava a tempo de desesperar-me que vi seu desabafo, com o qual prontamente me identifiquei. Benditos algoritmos que parecem ouvir nossos pensamentos! Há um amigo que me diz não haver coincidências, que nada acontece por acaso e eu estou começando a acreditar.

Não foi à toa que sua fala, viralizou. Faço questão de transcrevê-la:

"Meu pai morava na... eu morava no Setor Sul. Meu pai descia com a Caravan dele de ponto morto para economizar a gasolina. Quantas vezes eu deparei com isso! "Pai, por que você tá pondo assim?", "Para economizar gasolina". Isso é verdade, gente, é triste, mas foi o que eu passei. Meu pai aposentou-se para poder advogar e pagar nossa escola, que estava atrasada 6 meses. O dia que ele completou o tempo de serviço, no outro dia, ele pediu aposentadoria. Vocês podem olhar. Qualquer um que se interessar pode saber disso."

"Pensemos nos promotores, porque eu sou uma mulher. Graças a Deus, meu marido é independente. Eu não sou, eu não mantenho minha casa. O meu dinheiro é só para mim, para fazer minhas vaidades. Graças a Deus, só para os meus brincos, minhas pulseiras e meus sapatos. Mais uma coisa, eu falo: eu tenho dó dos promotores que estão iniciando aqui a carreira, porque os promotores que têm filhos na escola têm que pagar. Porque eu já vi, o custo de vida é muito caro. Então, eu agradeço a oportunidade. Desculpe se eu me exaltei, e eu não sou nenhuma oradora, mas eu falei de coração. E quem fala de coração, fala a verdade. Muito obrigada."

Ao ver o seu vídeo, não pude conter a emoção e vislumbrei quanta ingratidão havia em meu coração. Cumpriu-se em mim o aforismo que diz: “Eu estava triste porque não tinha sapatos, até que encontrei alguém que não tinha pés.”

Foi catártico ouvir tão sinceras palavras acerca do drama vivido por V. Exa. e pelos demais colegas seus. Não sei como conseguiu conter as lágrimas ao fazer tão impactante desabafo. Lembrei-me do que mamãe sempre dizia: "A medida do ter nunca se enche". Eu, que nunca precisei  economizar na gasolina no meu percurso até o trabalho, estava chorando de barriga cheia. Sim! Havia acabado de comer cuscuz com ovos.

Seu exemplo encorajou e continuará a ter efeito positivo sobre os demais promotores. É como disse sua colega nessa mesma sessão do CPJ: 

“Estamos hoje em uma situação de pires na mão. Humilhados e agachados diante de todos os servidores de carreira jurídica no Estado”. 

Que vergonha para Goiânia! Que vexame para o Brasil!

Logo me senti impelida a compartilhar seu vídeo, para contribuir com a sua causa. Todavia, pra minha surpresa, recebi feedback nada agradável de alguns que antes me pareciam mais sensíveis. Um deles, do grupo de trabalho, riu e disse que vossa excelência deveria estar em estado de embriaguez ao gravar aquele vídeo. Imediatamente o corrigi e sugeri que se colocasse em seu lugar. Falei-lhe de alteridade e de empatia – algo que vossa excelência praticou ao pensar em seus pares:

“Uma coisa eu falo: eu tenho dó dos promotores que estão iniciando a carreira, os promotores que têm filhos na escola, porque hoje o custo de vida é muito caro”...

Uma colega, demostrando o quanto vive fora da realidade, disse que vossas palavras só podiam ser brincadeira. 

Acabei me desentendendo com quem a classificou como uma pessoa desconectada da realidade e bloqueei a outro que a chamou de burra. Dei bronca em quem disse: “É uma infeliz. Ainda bem que leva terra na cara igual a nós.”

Disse a colegas contenciosos que nossas categorias precisam se unir. Temos uma luta em comum! De tão patente o drama vivido por vossas excelências, tentam conformá-los e silenciá-los concedendo-lhes auxílios-alimentação, transporte, moradia, ajudas de custo e creche. Hoje, ao ir à padaria, alguém me pediu um auxílio. Não tive como não me lembrar de vocês.

Esses amigos e amigas que assim reagiram, em seu descolamento do mundo real, só faltaram dizer como a rainha: "Não têm pão? Comam brioches!"

Depois de ouvi-la, eu entendi porque a justiça, como dizem, anda tão mal das pernas. É a subnutrição.

Percebi que V. Exa, não estava legislando em causa própria, pois tem um marido que supre sua deficiência salarial.

“Eu sou uma mulher que, graças a Deus, meu marido é independente e eu não mantenho minha casa. Meu dinheiro é só para eu fazer minhas vaidades, graças a Deus. Só para os meus brincos, as minhas pulseiras e os meus sapatos”...

Vemos, nas Redes Sociais, a manifestação do que há de pior no ser humano. Um singelo desabafo como o de V. Exa., pode se transformar em motivo para linchamento virtual e motejo. Onde iremos parar? Deus, a quem Vossa Excelência como boa cristã agradece em sua fala, não tem sido invocado como devia e o resultado é essa demonstração de insensibilidade. 

V. Exa. Me deixou a pensar naqueles promotores e procuradores que não dispõem de alguém que assuma as despesas comuns. Quem usa bijuterias - é o caso de  pessoas acima referidas - não tem condições de entender o drama de quem  gasta com joias valiosas. Quem vive de quentinhas, como entenderá o drama dos que frequentam os restaurantes mais caros? Pode alguém que faz vaquinha para ir em alguma excursão à praia entender o drama de quem faz viagens internacionais, cujos filhos frequentam os mais caros colégios? Claro que não. Agora entendo porque vocês são chamados de "procuradores", pois são dores que vocês acabam encontrando nessa profissão.

Ainda bem que vez por outra entra um dinheirinho extra para ajudá-la na satisfação das inocentes vaidades, como ocorreu em dezembro passado, em que V. Exa. recebeu 92 mil e em abril do corrente ano que lhe garantiu 54 mil. Esses acréscimos periódicos devem amenizar o sufoco.

Concordo plenamente quando V. Exa. diz que a categoria ganha pouco. Uma professora de Física me ajudou a entender: A lua é 81 vezes menor que a Terra e a Terra um nada em comparação com o Sol que, por sua vez, é uma estrela de quinta grandeza. Portanto, o vosso salário é gigantesco em relação ao meu, mas pequeno diante de outros. Não é o vosso salário que é grande, e sim o nosso que é extremamente pequeno. Leia Pollyana Menina e depois Pollyana Moça. O jogo do contente poderá fazer diferença na sua vida...

Sua humildade encantou-me. Há quem queira viver de aparências, não é o seu caso. Expôs com franqueza o drama vivido por seu pai. Como ele, também não vejo a hora de aposentar-me. Para alguns colegas seus, a aposentadoria costuma vir como punição, mas para mim será uma bênção.

Passarei a pagar meus impostos com mais prazer a fim de possibilitar a vossa categoria um salário mais digno! 

Que vosso apelo seja ouvido urgentemente.

Unamos nossas forças!

 

Mary Joana Prado, professora

2 comentários:

  1. aldoanisio@gmail.com17 de junho de 2023 às 04:36

    Que resposta bem dada! ✨👏✨

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  2. Texto muito bem escrito. Adorei suas ironias inteligentes.👏👏👏 - Nelson Almeida

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