quinta-feira, 25 de novembro de 2021

REMÉDIO NOSSO DE CADA DIA - Heraldo Lins

 


REMÉDIO NOSSO DE CADA DIA


Tem um coco, depois uma pedra, tampa de garrafa... É assim a praia. Todas as manhãs encontro esses personagens abandonados por lá. Não são muitos, mas o ideal é que só permanecessem “as pedras no caminho”. O serviço de limpeza pública está dormindo, ou os “Sujismundos”, acordados.  

Também encontro princesas com seus glúteos empinados, rainhas com suas celulites. As primeiras sempre bem acompanhadas, as segundas com saída de praia, celulares, porém, sozinhas. Fico a imaginar: quanto mais aumenta a idade menos pessoas ao redor. Será proporcional? 

Continuo a caminhar e lá estão os vendedores de óculos e chapéus. Para eles preciso fingir que estou correndo, e disparo uns cinquenta metros antes e paro cem depois, mesmo assim ainda os escuto me chamando para comprar seus produtos. Hoje ninguém está isento de ficar longe deles. Fujo! Não adianta dizer que não quer, que não tem interesse... É perda de tempo! Eles nos acompanham, e se não correr em grande velocidade, correm também insistindo: compre, compre, compre! 

À beira mar também há mais cenas dignas de registro: logo cedo um casal bem-vestido se abraçando escondido entre os coqueirais: hummm... será se são solteiros? um cão esperando seu dono para ser colocado na coleira. Chego perto, o dono coloca a coleira e beija o cachorro. Acho essa última cena bizarra, “entre tantos”, “tem gosto pra tudo”.   

Correr na praia é muito bom, mas precisa pesquisar. Não basta colocar um pé na frente do outro e sair em disparada. É importante olhar as tábuas de marés para observar se as ondas dão passagem no horário que se quer correr. O ideal é sair duas horas e meia depois da preia mar. Nesse horário o oceano já está longe das dunas. Se estiver enchendo é melhor adiar, porque quando voltar tem que nadar ou, se não quiser se molhar, subir o morro. O mar não espera os retardatários.

Outro cuidado é com os pastores alemães. Se estiverem soltos é melhor se armar com uma faca, revólver, metralhadora, tanque de guerra, míssil nuclear, ou andar devagar com um pau na mão. Eles nos avistam e vêm em disparada. Fico planejando caso um queira amolar seus dentes no meu tornozelo, todavia, tudo bem até agora.  

Não é fácil sobreviver desarmado. Em todos os lugares há perigo. Se correr para a água, há o risco de ser comido por tubarão ou bactérias. É a mesma lógica da pessoa correr para o rio tentando se livrar das abelhas e ser devorado por piranhas. 

Mesmo com esses perigos todos, vejo o exercício físico igual a um xarope grátis. Se não tomar o remédio diário do movimento, dói tudo: dá uma dor descendo na perna que perco o sono; o braço parece uma dobradiça enferrujada; as costas fazem greve e se negam a apanhar uma moeda no chão. 

Se houvesse uma maneira de mandar o corpo correr e ficar nas redes sociais, eu já havia descoberto. Enquanto a ideia de Matrix não se populariza, vou encontrando, também, ecologistas com sacos nas costas catando copos e garrafas na beira do mar. Estes acreditam que estão salvando o planeta. Ainda bem que eles existem!    


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 20/11/2021 – 10:16



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