APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

NAS VEREDAS DE TODOS NÓS - Valdenides Cabral


NAS VEREDAS DE TODOS NÓS
Vou dizer, no meu verso,
O dia em que me perdi de mim
 pra ser poeta.

(Valdenides Cabral de Araújo Dias, in: poemas inéditos)

            Parodiando  o poeta Manoel de Barros, venho aqui dar umas “despalavras” sobre o novo livro do poeta santacruzense, Hélio Crisanto, Nas veredas de mim mesmo. Tendo lido os seus primeiros livros, Retrato Sertanejo (2008) e  Prosa de Cancela (2014), poderia dizer, num repente: a poesia deste poeta cantador cheira a chão, a água, a sol, a terra. Cheira aos quatro elementos primordiais da natureza, como bem pede a linguagem da grande poesia e como também nos diz o crítico francês, Mikel Dufrenne, no seu livro, O poético (1969, p. 53) referindo-se à relação  do poeta e da linguagem poética com a natureza:
Se o poeta trata a linguagem como coisa natural, é talvez pressupondo uma natureza falante. É em todo caso respeitando a função semântica da linguagem, elevando ao máximo seu potencial expressivo; esse potencial será tanto mais elevado quanto mais a palavra for restituída à sua natureza e reconduzida à sua origem.

            Reconduzida a sua origem, a palavra poética de Hélio Crisanto adentra o sertão potiguar buscando nele motivos para o seu versejar.  Em  cada palavra utilizada pelo poeta a musicalidade se instaura e, já não temos apenas  um poema, senão um canto-poema que prescinde da forma para existir, tamanha a força da escolha lexical. O conjunto de versos que compõem este livro traça uma cartografia do homem sertanejo em  toda a sua amplitude. Do  sertão sócio-histórico, geográfico e cultural que o circunda enquanto poeta e sertanejo, diante das veredas de terra batida e sol escaldante, o poeta (en)canta mais profundamente por tocar a essência de um ser, paradoxal, que vive entre o campo e a cidade, que é rio a desembocar no mar, um matuto em trânsito entre a forma e o conteúdo de sua poesia. No poema Biografia, por exemplo,  ele diz: “Trago em minha verve as prosas matutas”.
 Entre as décimas e as redondilhas o poeta capta o cotiano do sertanejo com a mesma maestria dos livros anteriorese e, com a maturidade poética que as “prosas matutas” lhe concederam, percorre, também, as veredas poéticas das palavras sem amarras de rimas e métrica;  desconstrói o corpo poemático formal para adentrar na espessura dos sentidos e transportar o leitor para um universo onde o real se mistura à fantasia, deslocando a palavra do seu lugar comum, ou despalavrando a palavra que agora vagueia pelos labirintos da dor humana que se alarga para além do sertão. Ele entende, como Manuel de Barros, que
O sentido normal das palavras não faz bem ao poema. Há que se dar um gosto incasto aos termos. Haver com eles um relacionamento voluptuoso. Talvez corrompê-los até a quimera. Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los. Não existir mais reis nem regências. Uma certa luxúria com a liberdade convém. (BARROS, O guardador de águas, p. 65 e 63)

            E é de dentro dessa liberdade formal que ele vagueia a sua mente, clandestino de seu próprio fazer poético, querendo apenas o amor da sua musa, a poesia. Diante dela, e não de sua forma, ele se curva e se preenche em corpo e alma, como podemos perceber no poema Resgate:

Vem poesia,
Penetra sorrateira em meus poros.
Arrebata-me.
Embala-me com teus acordes
Enquanto tenso, vou tecendo o fio das horas.
Escorrega na minha garganta suavemente
Para que eu possa te degustar.
Vem poesia,
Masturba o meu ego
E resgata o meu ser
Pois és meu verdadeiro orgasmo.

            Aos leitores, eis as veredas de um poeta que não precisa de diploma de poeta para sê-lo, posto que já nasceu poeta. E não se enganem: as veredas aqui não significam caminhos secundários. Em poesia, nada é secundário. As veredas são, portanto, os caminhos para se chegar a uma poesia que nem é popular, nem erudita. É, simplesmente, poesia. E agora são nossas.

Currais Novos, 14 de abril de 2016

Valdenides 


Valdenides Cabral De Araujo Dias
possui graduação em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (1986), mestrado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (1999) e doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco (2007). Atualmente é professora adjunta da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Teoria da Literatura e Literatura Brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: poesia, narrativa, erotismo, regionalismos literários. Publicou em 1999 o livro de Poesias, Pulsações, pela Annablume (SP), em 2009, Poesia Menor, pela Editora Scorteci (SP) e O Corpo Erótico na Poética de Gilberto Mendonça Teles, pela Edições Galo Branco (RJ) e, em 2011, Pontos de Passagem, pela Scortecci (SP). Em 2013 publicou O Retórico Silêncio, pela Editora da UFRN (EDUFRN), ensaio sobre a poesia de Gilberto Mendonça Teles, fruto do estágio Pós-Doutoral, na UFPE/PGLETRAS. É membro da União Brasileira de Escritores/RN.