APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O NEGRO E A CANTORIA DE VIOLA NORDESTINA - André Soares

André Soares e Cícero Justino

O NEGRO E A CANTORIA DE VIOLA NORDESTINA

A origem da cantoria dos repentistas é objeto de muita discussão; mas de forma global é reconhecidamente positiva a ideia que o período de seu surgimento tenha sido a idade média. Outro ponto de concordância também é que ela teve suas raízes no território francês, mas sua forma popular tenha sido formatada na península ibérica. O folclorista e etnólogo potiguar Luís da Câmara Cascudo admite até que esta forma de desafio poético seja bem mais antiga, tendo raízes aprofundadas na Grécia do período clássico: Que é o cantador? É o descendente do Aedo da Grécia, do rapsodo ambulante dos Helenos, do Glee-man anglo-saxão, [...] das runoias da Finlândia, dos Bardos armoricanos, dos escaldos da Escandinávia, dos menestréis, trovadores, mestres- cantadores da Idade Média. Canta ele, como há séculos a história da região [...]. É a epea grega, o barditus germano, a gesta franca, a estória portuguesa (CASCUDO, 2005, p. 129).79
 Analisando o discurso de Cascudo a partir de um olhar critico latente entre os historiadores, e por termos conhecimento tanto da época a qual o autor escreveu quanto do universo literário e político que o mesmo estava inserido, podemos entender que há uma negação clara de um elemento construtivo crucial na formação do povo e da cultura nordestina: O negro africano. Cascudo remete um pensamento semelhante ao do sociólogo Gilberto Freyre que hoje é entendido claramente como outro personagem atuante (de certa forma) na tentativa de omitir a interferência Negra na cultura do Nordeste quando cria o mito da famigerada e falsa democracia racial da colônia que tenta transmitir a ideia da justificativa da escravidão, onde defende que o escravo vivia satisfeito e sua condição era justa por ser “raça inferior”. Esta compreensão ainda prega a harmonia das relações escravocratas que defende o consenso entre as raças, ou seja, o branco escravizava por ser raça dominante e o negro aceitava por ter nascido raça inferior -- e vale aqui salientar que raça já é um conceito desgastado, antropologicamente concebemos esse termo como etnia. Sendo assim o discurso de Cascudo é preconceituoso na origem, tentando admitir a não interferência dos africanos na construção da cultura dos cantadores de viola do Brasil, algo que hoje pode ser verificado como mais um de seus equívocos. Temos que admitir que o folclorista é reconhecido como o maior conhecedor das culturas populares do Brasil, pois atuou de forma intensa durante muitos anos tanto nas bibliotecas como nas investigações de campo, entretanto devemos separar o que é conhecimento erudito e discurso tendencioso. A tendência atua no estabelecimento de um tipo de “ponte ideológica” que conduz cantoria aos traços de uma origem unicamente europeia, através de um discurso que a forja a manifestação popular como sendo exclusivamente uma continuidade de tradições medievais, e se relaciona interdiscursivamente com as noções de raça que povoavam o imaginário dos intelectuais- cientistas brasileiros, entre os séculos XIX e XX, algo que é inadmissível na atualidade. Precisamos salientar que na década de 30, época em que o folclorista construiu a obra Vaqueiros e Cantadores, foi o período no qual a nova configuração política pós-revolução demandava um intenso debate em torno da história nacional, da situação de vida das zonas rurais e urbanas, dos lugares litorâneos, úmidos, secos, íngremes, florestais etc; a fim de estabelecer uma identidade para a nação que estava sendo (re)construída. Período em que o movimento modernista liderado por Mário de Andrade passava por uma transformação, na qual, questão estética perdera sentido e os discursos ideológicos predominaram nos centros intelectuais, pressionados ainda pela problemática política de uma ditadura civil. Nesses anos, alguns membros do próprio movimento haviam se alinhado ao programa nacionalista do governo de Getúlio Vargas, e chegaram a trabalhar para o Estado na comitiva que alimentava esta intenção. CASCUDO, Luis da Câmara. Vaqueiros e cantadores. São Paulo: Global, 2005.

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