APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quinta-feira, 9 de julho de 2015

OS ESFOMEADOS - Parte 1 (Rosemilton Silva)


Um velho, sem nome até hoje, rondava pelas ruas da cidade a procura de um resto de comida. Alguém penalizado lhe deu um copo de leite. Bastou esse favor para que a morte chegasse em um minuto. Morreu de fome ou de comida? Das duas coisas certamente.
Continuava o mês. Na esquina da Cooperativa, aonde os boatos chegavam mais rápidos que em qualquer outro lugar da cidade, a politicagem era o prato preferido, mas a fome continuava sendo objeto de comentários.
— Ouvi dizer que vão construir um açude lá pras bandas do sítio do doutor.
— Eita! É agora que nós morre afogado de tanto beber água.
Começava a caminhada em busca do trabalho. A procura da exploração do homem pelo homem, o que não era nenhuma novidade.
Na feira o comentário já corria solto.
— O doutô arrumô trabaio prá nois. Agora a coisa vai mudá. Tamo precisando é de trabaiá.
— Mais cum essa fome danada cuma é que nois vai ficá em pé?
E haja gente e jumento trabalhando para construir o açude. A campanha política já rolava solta na buraqueira. Nada se prometia sem antes obter a certeza do voto a favor depositado nas urnas das eleições que se aproximavam.
— O home tá ca gota serena, sorto nas capoeira a precura de voto. Tá dando imprêgo a todo mundo e nois tem é que votá nele mermo, num tem outo não.
Os boatos continuavam na esquina da Cooperativa em torno das fraudes nas últimas eleições e o que poderia acontecer nas próximas, com a fome do povo e a miséria rondando os lares da cidade e do campo, exceto nas casas de alguns abastados enriquecidos pela própria política e que estavam prestes a ficarem mais ricos. Era o ano de uma nova campanha eleitoral, tempo de vacas gordas. O povo continuava trabalhando para enriquecer mais ainda essa gente com o dinheiro dos impostos que deveria ser revertido para o próprio bem estar da população.
— Rapaiz, diz qui o barracão tá chein de fejão. O guverno mandô foi munto.
— É, mas num aparece esse bicho e o que vem prá gente num tem fogo da mulesta qui cusinhe o bixiga.
As conversas corriam com os adversários descobrindo tudo a respeito do assunto. O feijão preto, de primeira, era vendido a comerciantes da cidade e substituído no barracão por feijão macassar, que era produzido nas fazendas dos políticos.
— Danou-se! O fejão qui eu arrecibí essa sumana tava cum um gurgui da mulesta. Mais cuma os minino tão cum fome vai é assim mermo.
As pessoas continuavam, dessa maneira, enganando o estômago e a esperança de a chuva voltar. O homem do campo, mesmo que tenha dinheiro, nunca está satisfeito se diante de seus olhos não estiver o verde do feijão florando, o cabelo loiro do milho bonecando e o nascer do capulho do algodão.
— Aqui pode inté num fartá cumida, mais bom mermo é a gente ver o mio bunecano, o fejão fulorano e o argodão capuchano.
O burburinho na esquina da Cooperativa continuava. As prévias eleitorais já tomavam conta da pequena cidade, celeiro de deputados, governador, senador e prefeito da capital. Os mais afoitos e avessos a coronéis e majores, acreditavam ser a hora e a vez de derrubá-los. Lutavam com unhas e dentes no afã desse dia de glória que, na conjuntura atual, jamais conseguiriam. O “majó” Teodolino, título conseguido com o dinheiro do povo, estava para chegar a cidade. Um “rosário” de pessoas se preparava para falar com o “homem”. Mas antes de tudo isso aconteceram fatos que marcaram a vida da pequena cidade do interior.


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— Lá vem o “majó”!!!
Esse grito de guerra ecoava como uma bênção na cidade. Ele na frente, com seu eterno chapéu de “cowboy”, enorme, sombreando quase todo o corpo, seguido por uma procissão que se limitava a dizer amém a todo e qualquer gesto dele. Um grito em um; aperto de mão em outro; um abraço mais forte naquele que lhe poderia dar muitos votos na próxima eleição.
— Você viu, Zé do Bode? O “majó” deu um abraço cachorro da moléstia em Zeca Cafuringa. Também o homem tem prá mais de cem votos.
Rompe Ferro, um bêbado desses inteligente e revoltado, não admitia tamanho desaforo para sua carne sofrida da podridão da politicagem. Era assim que ele começava seus discursos no velho coreto em frente à matriz que tempos depois foi derrubado para dar lugar ao “progresso”. Os estudantes, profundos admiradores de Rompe Ferro, se dirigiam ao coreto e esperavam ansiosamente a fala. Ele fazia o charminho que os políticos costumam fazer. Nunca começava o discurso na hora marcada e mantinha sempre um copo com álcool, limão e açúcar como se fosse à água. Rompe Ferro dizia que a cachaça não lhe fazia mais o efeito desejado.
Contavam até que ele tinha sido um grande professor lá pras bandas do sul do país e que, desiludido no amor, saiu a percorrer o mundo em busca de um lugar tranqüilo que, segundo ele, jamais encontraria.
— Meus senhores e minhas senhoras. Tenho que dizer: e putas também. Esta cidade precisa de um homem que dê mais comida a todos nós...
E os estudantes entravam em transe, era um verdadeiro delírio. Aplaudiam. Assobiavam. Gritavam.
Os jovens eram os únicos assistentes e profundos admiradores de Rompe Ferro. Seus pais, comprometidos com os “deveres e o progresso da cidade”, devendo obediência aos coronéis e majores, não aceitavam que os filhos não estivessem presentes a “procissão” dedicada ao “santo político”. Por seu turno, o “majó” cobrava fidelidade e achava ridículo toda àquela platéia para um escória da sociedade.
À noite, na pracinha onde as moças rodavam sem parar e se divertiam entre um olhar e outro mais atrevido, os comentários giravam em torno das “pisas” que fulano ou cicrano levaram do pai por não ter comparecido a manifestação em detrimento do comício de um bêbado.
— Rapaz, Armínio ficou em casa de castigo e o pai disse que da próxima vez vai ser pior: é uma semana sem sair de casa e domingo não vai assistir ao seriado de Batman e Robin.
Zé do Bode, estudante atrevido em suas críticas, que tinha ampla liberdade do pai, um profissional que trabalhava como fotógrafo para o “majó” e os demais políticos, estava preocupado também com o futuro da cidade. Os pensamentos de Zé do Bode tinham o respaldo dos estudantes que começavam a se organizar em grêmios e centros recreativos, mas nenhum deles ainda tinha na garganta o grito de “Liberdade, Liberdade”.
O doutor Serrinha, sempre com as batas sujas do penúltimo, do último parto, vestindo-as uma por sobre a outra, era um gozador e não perdoava quem cometesse erros até mesmo de português, mas não tinha preconceitos. Afirmava sempre que não havia amigo melhor que o dinheiro e que só o vil metal era a verdadeira amizade.
O Bar do Ponto, onde os estudantes se reuniam para um papo puxado a cafezinho  — quando alguém pagava toda a conta — era o ponto principal dos encontros. Também era o local preferido do médico Serrinha. Aliás, o único médico existente no raio de mais de 50 quilômetros. Quando receitava alguém, quase sempre em uma das mesas do Bar do Ponto, exigia que o paciente fosse a farmácia comprar o medicamento e trazê-lo até ele para ver se estava correto o aviamento da receita.
— Com esses farmacêuticos não se brinca. Eles vendem merda por penicilina e a gente é quem se lasca, porque dá a consulta de graça e ainda fica com a fama de não saber nada, o que não é o meu caso.
Todos os políticos da cidade cobiçavam o doutor Serrinha. Ele seria o maior conquistador de votos e se quisesse poderia ser o prefeito com muita facilidade. Mas não gostava da política e em dia de eleição votava cedinho e desaparecia. Mesmo assim, muita gente perguntava quem ele indicaria para receber o voto.
— Todo político é ladrão. Está mais preocupado em roubar do que sentir de perto a fome do povo. Eles adoram essa seca porque isso vai enricá-los ainda mais.


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A difusora Cai Puru acabava de tocar a velha marchinha “Burro Teimoso”. O locutor, com aquela voz cavernosa de conquistador barato, anunciava o mais recente produto chegado a cidade.
— Sabonete life boi é bom prá péia!
O dono do anúncio, irritado com o fracasso do inglês do locutor e da publicidade negativa lida segundos antes pelos “potentes microfones”, saía do bar/sinuca/mercantil com vontade de esganar o dito cujo. Chegou à porta da “divulgadora” — como a grande maioria costumava chamar — e esperou o novo anúncio.
— Sabonete life boi é bom prá péia.
— Péia não, imbecil. Peeeeellllllllleeeeeeeeeee!
— Depepção. Retificano: peeeeeelllllllliiiiiiiiiaaaaaaaaa!
A emenda saíra pior que o soneto. Na pracinha, os estudantes já tinham tomado conta do “péia”. E não se falava mais em outra coisa.
— Lá vem o “majó”
— Dá um banho nele com sabonete life boi que é bom prá péia!
Foi o bastante para os cabras do “majó” travarem uma verdadeira batalha com os jovens na quadra de voleibol, toda de areia e cercada por uma pequena mureta de cimento.
Corre daqui. Corre dali. Ninguém segurava ninguém.
— Esses cachorros da moléstia parece que têm sebo no corpo.
— É nada. É que todo mundo tomou banho com sabonete life boi que é bom prá péia.

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A entrada triunfal com banda de música conseguida da Associação dos Escoteiros, que sequer sabia de sua existência, se dava com todo o furor de um verdadeiro imperador. Foguetões subiam. Era o dinheiro do povo que mais uma vez estava sendo gasto em coisas que não traziam nada de bom para a terra. Era o mesmo dinheiro que deveria estar matando a fome que assolava em toda a região.
Gritos eufóricos e raivosos misturavam-se cortando o ar sereno e calmo há poucos minutos. Acabava-se de uma vez por todas, naquela noite, o romantismo do piscar de olhos entre moças e rapazes que, aliás, não se atreviam a se darem as mãos e rumarem num passeio tranqüilo que a cidade oferecia a qualquer hora da noite.
Naquela hora o que contava eram os comentários da esquina da Cooperativa; o que a Câmara faria ou deixaria de fazer para o “engrandecimento” da cidade; os ataques aos adversários que também estavam loucos para se elegerem e conseguirem se apoderar do rico dinheirinho mandado pelo Governo Federal e que deveria ser empregado nas obras públicas.
Rompe Ferro triste, caminhava lentamente. Uma outra procissão, mais barulhenta ainda e só sufocada pelo espoucar dos foguetões, iniciava o seu ritual sob os olhares mais perplexos da gente adulta.
— Como é que pode, esses estudantes de merda quererem bagunçar o nosso comício? Vamos dar um jeito nisso. Vamos colocar esse bêbado, filho de uma puta, na cadeia.
Já no Coreto, após o sempre eterno ritual costumeiro, Rompe Ferro pegava o seu instrumento de trabalho: um cabo de vassoura com uma lata de óleo na ponta e um copo contendo a famosa mistura de álcool, limão e açúcar:
— Minhas senhoras, meus senhores e putas também. Nesta noite de tanto dinheiro gasto advindo do nosso bolso via órgãos federais, cabe a mim defender a quantos não podem levantar a voz em sua própria defesa.
Os estudantes deliravam. Aplaudiam. Gritavam e festejam com areia.
A voz de Rompe Ferro tinha a potência de um potente amplificador. Não se sabe se era a cachaça que lhe amplificava a voz ou a vontade e a sede de justiça. O silêncio entre uma frase e outra era sepulcral parecendo até que ali não tinha ninguém e só quebrado pelo arrastar de uma sandália, de um chinelo mas logo reprimido com um beliscão nas partes baixas, um chute na canela.
Lá de trás alguém grita:
— Lá vem a Polícia...
O comício continuava e Rompe Ferro, mal sabendo que seria levado preso, o que também não faria muita diferença para ele, dar asas as suas frases de efeito. O policial deu voz de prisão a Rompe Ferro. Nesse leva não leva, a trancos e barrancos, o bêbado era encarcerado até que a cachaça lhe saísse do juízo. Mas tudo sob o protesto dos estudantes.

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A continuar

PARTE 2: OS ESFOMEADOS II