APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


domingo, 26 de agosto de 2012

Entre a seca e a saudade: uma leitura de Vaca Estrela e Boi Fubá - Cristiane Nóbrega



Recentemente, ouvindo “Vaca Estrela e Boi Fubá”, letra do grande poeta Patativa do Assaré, cantada por dois ícones da música nordestina – Luiz Gonzaga e Fagner - retomei algumas ideias de um texto que havia escrito já faz algum tempo e resolvi publicá-las em homenagem ao centenário do Rei do Baião, Luiz Gonzaga, com a intenção de ressaltar sua influência na disseminação dos traços identitários de nossa nordestinidade.
As identidades regionais são construções que se forjam em práticas discursivas de diversas naturezas e que se concretizam em variados gêneros textuais. Em “Vaca estrela e Boi Fubá”, é possível encontrarmos elementos caracterizadores do que, comumente, tem-se denominado de identidade nordestina, gestada anteriormente por várias correntes discursivas, dentre elas, a euclidiana, a sociológica freyreana e a dos romancistas da geração de 30.
A defesa freyreana de um Nordeste nostálgico, olhando com saudades para um passado farto e opulento, não encontrará nessa música a mesma referência ao segmento social dos senhores de engenho nem as práticas de sociabilidades ali existentes. No entanto, o sentimento saudade é tão pertinente em “Vaca Estrela” quanto na obra do sociólogo de Apipucos. Certamente, o saudosismo é aqui recorrente porque as práticas discursivas anteriores a essa música transformaram-no em um elemento caracterizador da identidade nordestina, seja no litoral ou no sertão, não importa o local e sim a relação sentimental do homem com a terra.
Em “Vaca Estrela e Boi Fubá”, a ideia do homem telúrico apegado ao seu “torrão natá” nos remonta ainda aos vestígios de uma construção identitária anterior a de Gilberto Freyre: o regionalismo naturalista euclidiano, que toma o homem como produto do meio. A este último discurso, renderam-se e o reproduziram os escritores da geração de 30.
Portanto, embora haja uma visível predominância de elementos caracterizadores do sertão: a seca e o gado, vê-se, com efeito, em “Vaca Estrela e Boi Fubá”, a presença de uma polifonia discursiva que, ao mesclar-se, idealiza uma identidade homogênea referente a espaços diferenciados do ponto de vista natural e sociológico, ou seja, fundem-se elementos identitários do litoral e do sertão para configurarem uma unidade ao recorte geográfico intitulado de Nordeste.
Para o historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior, “a saudade é um sentimento pessoal de quem se percebe perdendo espaços queridos de seu ser, dos territórios que construiu para si. A saudade também pode ser um sentimento coletivo, pode afetar toda uma comunidade que perdeu suas referências espaciais e territoriais, toda uma classe social que perdeu historicamente sua posição, que viu os símbolos de seu poder esculpidos no espaço serem tragados pelas forças tectônicas da história.” Portanto, o lirismo saudosista que aparece nesse poema de Patativa do Assaré é um dos elementos essenciais para a noção de identidade, pois a permanência em uma “terra estranha” possibilita estabelecer o sentimento de pertença ou não a um determinado grupo. Estar no sul é estar distante dos códigos referenciais relativos ao espaço nordestino. É preciso então construir um elo que não faça esquecer a origem.
Logo, quando Luiz Gonzaga e Fagner resolvem musicar o texto de Patativa do Assaré processam mais rapidamente a socialização desses códigos tanto fora como dentro da região, pois a música, pela sua própria especificidade, consegue atingir um número maior de pessoas. Assim, os muitos nordestinos que, em decorrência das transformações históricas e sociais, ocorridas no final do século XIX, foram obrigados a migrarem para o sul em busca de empregos na pujante agricultura ou no parque industrial que ali se formava, encontraram em músicas desse teor a possibilidade de continuarem perpetuando os códigos referenciais que os tornam diferentes dos sulistas reafirmando a pretendida “nordestinidade”.

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 1999.