sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Os Reis no Lixo – Presentes na Memória! - Marcos Cavalcanti


Assistindo hoje a uma reportagem da Televisão Espanhola não pude deixar de lembrar do que talvez tenha sido a minha maior tristeza vinculada às memórias que tenho de minha passagem pela Casa de Cultura Popular. Explico-me. A reportagem falava das figuras bíblicas dos três Reis Magos, Baltazar, Gaspar e Belchior, que na Espanha gozam de muito prestigio no dia de sua comemoração. Lá, eles estão por toda parte, substituindo e representando com muito mais originalidade a figura do Papai Noel. Segundo entendi, é neste dia (06 de janeiro) que as crianças recebem brinquedos de seus pais, numa tradição que nos  remete aos presentes que os magos teriam levado para o menino Jesus, conforme narram as escrituras.
 A tristeza veio da notícia que Jales Costa me dera no ano passado, quando perguntei onde estavam os Reis Magos que havíamos feito. Ele  me respondeu: foram jogados no lixo. Fiquei sem palavras naquele momento. Sei que pode parecer estranho que um ateu convicto como eu possa ficar triste com uma notícia destas, mas o fato é que fiquei, não por qualquer razão ou escrúpulo religioso, evidentemente que não, já que não os possuo, mas sim pelo que significou a construção deste presépio em tamanho natural, que por muito pouco não foi matéria no jornal Nacional, a partir de uma articulação com o amigo Buca Dantas, cineasta e jornalista.  
Lúcio Lustosa foi o seu grande arquiteto, aceitando o desafio de construir algo que atraísse, por sua beleza, a atenção e os olhares dos santacruzenses e de outras pessoas para a Casa da Cultura durante o período natalino. Lustosa projetou e trabalhou intensamente com uma pequena equipe durante uns dois meses ou mais. O trabalho às vezes entrava pela noite  e o que mais nos torturava era a incerteza se os recursos conseguidos seriam suficientes para concluí-lo. Finalmente o concluímos e no Natal de 2005 fizemos uma grande festa de  inauguração, marcada pela apresentação do coral do Peti e do Boi do Oriente de Antônio da Ladeira. Os três Reis Magos, Maria, José, o menino Jesus, um burrinho e uma vaquinha constituíam o presépio, que teve também uma cabana para abrigá-los do sol e da chuva. Os personagens foram construídos com armação em arame e cobertura de papel reciclado, com massa corrida por cima fazendo o acabamento e a pintura que lhes deram um colorido todo especial, ainda mais ressaltado por uma iluminação interna que lhes emprestavam uma áurea singular.
O grande mérito desse projeto foi o de arrecadarmos brinquedos para doação à brinquedoteca do Hospital Universitário Ana Bezerra. Para tanto fizemos uma grande caixa de presente que era posta ao lado da manjedoura e as pessoas vinham e depositavam nela o seu presente.  Viajamos com o presépio para as cidades de Lajes Pintadas e Campo Redondo, onde a generosidade das pessoas ajudaram a encher a grande caixa com brinquedos novos e usados. Era tocante ver criancinhas trazendo brinquedos para depositar na caixa, e em seguida irem tirar fotos com os pais junto às imagens, sendo o burrinho e a vaquinha, os mais procurados por eles para as fotos.
O presépio foi restaurado no ano de 2006 e acho que chegou a ser instalado nos anos seguintes em frente à Casa da Cultura, mesmo visivelmente deteriorados pela ação do tempo e pela falta de manutenção. Hoje, graças à insensibilidade de quem não os soube conservar, repousam desfeitos no lixão da cidade, talvez a recordar a estrela que os guiou à brinquedoteca do Hospital Ana Bezerra, naquele 06 de janeiro de 2005, em que fizeram a alegria das crianças e dos brinquedistas que acolheram os seus presentes, ouro, incenso e mirra em forma de brinquedo para amenizar a dor de crianças internadas naquela instituição.


 Marcos Cavalcanti

3 comentários:

  1. Belo texto, Marcos,extraído de tão triste realidade!

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  2. "Hoje, graças à insensibilidade de quem não os soube conservar, repousam desfeitos no lixão da cidade,..." Mestre Cavalcanti, do ponto mais alto de sua discrição e elegância não deu nomes aos bois. Ele tem razão! Às vezes um cruzado de direita, ou de esquerda, ou um direto na pontinha do queixo pode derrubar muita gente! Parabéns pelo texto, Mestre, e lamento muito o ocorrido!

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  3. Esse texto me transmitiu certo alívio. É que certo dia do ano 2009, na hora do intervalo em nossa Escola de Ensino Médio, percebi os alunos ao redor do depósito de lixo. Ao me aproximar fui surpreendido com uma grande quantidade de livros que eles tentavam tirar dali. Ao retornar para a sala de aula era grande a quantidade de livros sobre as carteiras, enquanto alguns alunos ainda insistiam ao redor dos livros, no lixo. Chateado com o que vi e por não ter ao menos um celular para filmar tudo, liberei os alunos e disse: A nossa aula se resume em ir catar livro no lixo. O alívio é porque de repente tive a sensação de que isto não acontece apenas aqui. Ainda bem! Desculpem-me pela franqueza.

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