QUEM SALVARÁ O TRAIRY CLUBE DO ABANDONO?
Quem passa na rua Manoel Cícero de Lima, esquina com a rua Coronel Ivo Furtado, e tem pelo menos uns 25 a 30 anos de idade, não pode ficar indiferente ao olhar para aquele prédio no coração da cidade, que outrora embalou os sonhos fagueiros da sociedade santacruzense e trairiense, nas suas incontáveis e memoráveis noitadas festivas ou tardes de domingueiras dançantes. As fotografias já amareladas pelo tempo ou preservadas nos bites da tecnologia digital continuam dando testemunho de uma vida social pujante e animada, que constituíram os anos de ouro de nossa juventude. Também devem existir muitos registros fílmicos de suas atividades, de suas festanças, tais como a festa do Reencontro, a festa do Parafuso, a Festa das Personalidades e tantas outras de nomes diversos que a astúcia de Mílton Fernandes foi capaz de inventar ao longo de tantos anos gerindo unilateralmente este patrimônio sócio-cultural. Toda essa história deveria se transformar num acervo público a ser preservado das traças do tempo, pois é a própria identidade festiva da cidade e região que estão nele, impregnados. Salvemo-lo antes que seja tarde!
O Trairy Clube, embora de arquitetura simples, não é um prédio qualquer, ele tem história, muitas histórias, e não pode ser simplesmente devorado pela voracidade do tempo e pela indiferença de quem possa resgatá-lo deste lamentável ostracismo a que foi relegado nos últimos anos. Os seus muros carcomidos e de tijolos expostos, expõe muito mais do que rachaduras físicas e a possibilidade de cair repentinamente, machucando algum transeunte desavisado. Eles expõem o abandono a que foi relegado o palco principal da sociedade santacruzense. Não se trata aqui, friso, de apontar o dedo para ninguém em particular, porque a culpa, é sim, um pouco de cada um de nós, se permanecermos inertes ante à implacável ação destrutiva do tempo. Trata-se sim, de atendermos ao grito de apelo que ecoa daquelas paredes e colunas, onde nos encostamos tantas vezes para beber, para beijar, ou simplesmente para mirar os que dançavam no salão. No seu palco, pisaram grandes nomes do cenário musical brasileiro, tanto em shows solos, como bandas: Agnaldo Timóteo, Moacir Franco, Jerry Adriani, Núbia Lafayette, The Fevers, Renato e Seus Blue Caps, ou mesmo as pratas da casa como a Turma do Sereno e suas serenatas, a Banda de Didi de Michael, etc. Como não lembrar dos bailes de carnaval, das matinês, dos são joões, das feijoadas dançantes, dos shows de humor, de transformismos, dos inesquecíveis desfiles para eleger as mais belas de nossa juventude, das gincanas, dos casamentos e aniversários. O seu salão também serviu de tatame à prática do karatê e de outras atividades esportivas, abrigando também exposições escolares. Foram tantas as atividades que elas não cabem nesta pequena crônica de apelo e saudade.
O Trairy Clube é sim uma lembrança viva na memória afetiva de toda uma comunidade, e porque não dizer, de toda uma região, que viveu nele, momentos inesquecíveis, desde a sua fundação nos anos 50, quando um grupo de cidadãos e cidadãs, unidos pelo interesse coletivo, não mediram esforços para dotar a nossa cidade e região de um espaço que pudesse ser protagonista cultural e social de nossa cidade. Por certo que este atual estado de abandono, que se encaminha para um estado de ruínas, faz revirar nos túmulos, os ossos de seus ex-sócios fundadores, cuja memória, os vivos têm o dever de preservar.
Eu acredito na sociedade santacruzense, cidade que soube se reinventar depois da tragédia da enchente de 1981. É possível fazer ressurgir das cinzas, também o nosso Trairy Clube. Quando digo nosso, é porque ele é sim um patrimônio de todos nós, uma herança e legado dos que já se foram, que doaram terreno, cimento, milheiros de tijolos e de telhas, além de trabalho braçal voluntário. Neste texto de sensibilização, apelo às autoridades públicas, apelo à comunidade, apelo a Milton Fernandes, apelo aos empresários, às instituições: Vamos juntos, TODOS PELO TRAIRY CLUBE, e salvemos das ruínas o nosso mais querido palco festivo, entregando-o novamente à comunidade.
Marcos Cavalcanti (Poeta, prosador e ativista cultural)
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