quarta-feira, 31 de maio de 2023

NOVO GOLPE

 


NOVO GOLPE


Estou preso sendo obrigado a escrever mais de oitocentas palavras. É o preço do resgate. Agora a bandidagem está roubando ideias, e por isso eu vim parar neste cativeiro. Prenderam-me numa sala com um computador, porém sem internet. Está difícil escrever já que preciso consultar a grafia das palavras, checar datas e, sem essa ajuda, praticamente estou no mato sem gato. Acho que o ditado é esse mesmo. 

Ando meio esquecido, e só percebo meu grau de desmemorização quando fico sem as redes sociais. Bem, vejamos o que vou dizer para conseguir minha liberdade. Quando é sem pressão até que dá para ir tendo ideias, no entanto com câmeras ligadas e com o computador sendo espionado, não me sinto à vontade nem para gritar por socorro. O jeito é dizer que já passou das cem palavras, cento e quarenta e cinco para ser exato.

Os bandidos até que não exigiram algo muito profundo, ainda bem. Estipularam o total de palavras, e pronto. Avisaram que não vale palavras soltas tipo Joaquim, caminhão, sapato. Posso até dizer que Joaquim comprou um caminhão de tanto vender sapatos, só que não conheço nenhum Joaquim que vende sapatos e nem quem comprou um caminhão. 

Agora deu! A luz apagou-se. O computador permanece ligado, mas acho que vai acabar a bateria. Desse jeito tenho que correr com as palavras para conseguir destrancar a fechadura de código que se abrirá quando eu chegar ao total. 

Estou sendo mantido preso à distância pelo controle remoto via satélite. Mesmo que a polícia chegue não encontrará nenhuma pessoa para prender. Ficarei em liberdade e os meus raptores também. Hoje tudo é feito via sinais remotos, e minha, não só a liberdade, sobrevivência, também dependerá dessa capacidade de produzir. 

Deu um branco, contudo mesmo que aconteça o que acontecer o importante é ir digitando. Apareceu uma mensagem que a bateria ainda dá para mais quinze minutos. Não consigo produzir em quinze horas, imaginem em minutos. Deu-me dor de barriga, e se eu for ao banheiro a bateria acaba. Vou trancar em baixo e tentar soltar em cima. Vamos que vamos. Essa repetição de “vamos que vamos” não valeu, alertou-me o programa. 

Pulo o parágrafo para ver se consigo algo do lado dessa ribanceira. É como se fosse um rio. Estou às margens pescando ideias nesses segundos torturantes sem nada para dizer, dizendo. 

Sei que muitos estão se divertindo do outro lado da cidade com meu aperreio. Caso não consiga, vou morrer por inanição. Faltam catorze minutos. Vou ligar o cronômetro. Ah, desculpem-me, agora foi que me lembrei que o celular foi confiscado e assim estou praticamente nu, sem celular e sem internet passei a fazer parte da multidão dos sem-sinais. Não sabia mais o que era esse negócio de angústia, pois acho que ela desapareceu depois que passei a usar os vídeos curtos como forma de produzir dopamina, só que ela está de volta, tanto pelo prazo correndo quanto pela falta dos vídeos curtos. 

Coço a cabeça do lado direito. Agora foi que percebi que nunca coço do lado esquerdo. Pelo menos estou prestando mais atenção em mim. Esfrego as mãos uma na outra para ver se consigo digitar. O frio aqui dentro está abaixo de zero, e eu sem camisa e sem calça só com uma cueca já pedindo para ser bucha na minha oficina.

Para quem não sabe, tenho uma oficina de consertar motos. Todos os dias, conserto de duas a três justificando o porquê das minhas unhas ainda estarem sujas de graxa. Fui raptado no meio da madrugada sonhando com uma espaçonave em forma de motocicleta. Acho que foi a influência de um vídeo que assisti ontem das motos voadoras que estão sendo fabricadas. Vou comprar uma nesses dias para chegar às festas juninas já voando. É, porque no próximo mês teremos as festas de São João e eu vou estar lá. 

Treze minutos faltam. Nesse ritmo acho que vou conseguir. Pelo barulho da sirene, deve ser a polícia chegando. Eu tenho um rastreador dentro do corpo que já havia sido acionado há duas horas. Agora acho que vou sair dessa. Se eles demorarem mais para arrombarem a porta, morro congelado. Faltam só mais cem palavras para o sistema ser acionado. Tô quase lá.

Lembrei-me das panelas que vendi ontem. A mulher que comprou passou uma mensagem dizendo que em casa foi que percebeu que as panelas eram muito velhas. Não respondi porque tive vontade de dizer que o buraco do nariz dela é muito mais velho e ela ainda nem jogou fora. Mas fiquei só para mim, não disse, mas vontade tive. Tem coisa que é melhor nem dizer, e logo eu que sou um cara muito respeitador não ficava bem baixar o nível, porém as pessoas sabem que não foi bem sobre o buraco do nariz que eu quis fazer referência... Eita, a porta se abriu! 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/31.05.2023 – 16h52min.





3 comentários:

  1. Podemos dizer que se trata de um golpe do bem. - Gilberto Cardoso dos Santos

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  2. É verdade. É a mesma coisa de prender um guloso e dizer que ele só sairá da prisão depois que comer um monte de chocolates. Tem um fundo de semelhança com uma que fiz que o ladrão rouba as dores dos velhinhos. Está aqui no blog e nem me lembro o título nem a data que foi publicada.

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  3. Esse comentário acima saiu anônimo, porém o autor do comentário fui eu, euzinho, Heraldo Lins.

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