APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


segunda-feira, 18 de junho de 2012

QUAL O SEU PREÇO? - Francisco Maciel


Foi de Rita Medeiros o questionamento que vi no facebook e que motivou este texto: IPI reduzido e o preço das bicicletas nas alturas: carro polui, bicicleta não... Pode? Isto me lembrou do tempo quando a ela se somavam João Edilson, Isa, Chico Palmeira, Laércio, Gilberto Cardoso, Fátima Pereira e Chagas, em discussões interessantes, polêmicas e por isso ainda hoje presos à minha formação acadêmica e até espiritual, acrescidos aqui do amigo e irmão em Cristo, in-memorian, Zé Tavares. O questionamento procede e mexe com nossa hipocrisia no que se refere à preocupação com o planeta, com o meio ambiente, porque fica evidente que não há convergência entre economia, educação e nossos discursos ecológicos, já que nossa real  preocupação nem chega a ser mesmo com um planeta capaz de se recompor por si só e sim com a deflagrada ameaça à nossa vontade egoísta de existir e de permanecer por aqui.

A preocupação não chega a ser ambiental e sim econômica. Vejo carros nas ruas lotadas de cidades que só podem agora crescer para cima e na lentidão do trânsito, em cada carro, quase sempre a pressa somente de um passageiro só. Nas paradas dos transportes coletivos, gente disputando espaço na esperança de um dia poder infernizar o trânsito ainda mais. Nas lojas, a sedução pelo crédito de dívida longa para a realização de um sonho ou uma dor de cabeça e no governo a estratégia de segurar a economia reduzindo juros para assim aquecer o mercado pelo consumo. É certo que para a economia funciona, mas só em curto prazo, pois são paliativos e com efeito colateral. Tudo isso tem a nossa corroboração, depois de nossa legislação exigir cinco preciosos meses de cada trabalhador somente para pagamento de impostos e sem o devido retorno que se espera.

E a exemplo de Rita eu também fiquei decepcionado ao consultar o preço de uma bicicleta. Essa era ergométrica e , ao contrário da dela, sem paisagem nem brisa e, claro, para nem ser um meio de transporte, mas bem consoante ao nosso sacrifício por uma proposta de vida saudável. O preço também nas nuvens e foi então que decidi botar o pé no chão em meu salão de dez metros de comprimento para uma hora por dia de caminhada em círculo, seguindo em minha bicicleta quebrada, que parada me acrescentam vinte minutos de improviso em pedaladas por sessão e minhas duas garrafas de pet de meio litro, com cimento petrificado para vinte minutos de exercício de musculação diária, alternando com algo em torno de duzentas flexões entre cada modalidade.

Minhas primeiras lições e impressões desconfiadas dessa nossa economia foram anos atrás, durante a compra de uma geladeira. A minha havia quebrado e, sem querer ofender, percebi o vendedor desconsertado quando lancei o desafio de um negócio à vista. Ele balbuciou que o proprietário da loja preferia vender a prazo e saí dali com a péssima sensação de que havia ofendido alguém. O vídeo cassete que adquiri ofereceu doze funções no valor da venda, das quais nunca fiz uso de muitas delas, pois do que precisei enquanto não lhe faltou conserto, foi somente que retrocedesse, adiantasse, reproduzisse e que me gravasse alguns programas com datas e horas programadas. Achei engraçado quando fiquei sabendo que carro e moto não mais somente no meu mundo tinham ano e modelo, mas também guarda-roupa. Isso mesmo: guarda-roupa com ano e modelo, quando ainda nem se discutia se era justo ter hífen. A descoberta foi por ocasião de uma busca que fiz e achei tudo tão bem humorado que até perguntei ao vendedor se isso faria alguma diferença para as minhas roupas. Anos depois adquiri uma mesa com seis cadeiras e aprendi que esse tipo de produto tem prazo de validade, pois o montador foi quem disse que seria em torno de dez anos e passados algo próximo de oito, vi o cupim frequentando a minha casa. E dessa época ainda, na praia, discutindo com o vendedor de cocos, ele me esquadrinhou da cabeça aos pés e escolheu o meu preço: para os gringos é “três real”, “mais” para os pobres é setenta centavos. E sem qualquer rogativa de minha parte à sua justiça, comprei dois cocos e paguei exatos um real e quarenta centavos por isso.

Evidentemente não temos que ser nenhum expert no assunto, mas necessitamos também dele em nossa lista favorita de marketing para nossa reflexão e em cadeia nos protegermos dos ataques à luz do dia e também à noite, pois essa novela nos chega até em mensagem subliminar, adentrando nossos lares, anestesiando nossas mentes para as ofertas tentadoras de um mundo utópico, em horário de nobreza, patrocinado por nossa ingenuidade, já que nossa fragilidade preenche e endeusa toda nossa poltrona, extensiva ao nosso travesseiro, numa corrida de pobres mortais por sonhos mecânicos que nunca chegam ou que nunca cansam.

Maciel.