quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

AVULSO

 


AVULSO


Numa madrugada de pouquíssima brisa, um solitário permanece acordado tentando encontrar vocabulário para conduzir seu pensamento. Sabe que não tem como apressar o nascimento do sol ou apagar memórias desagradáveis, por isso fica imóvel esperando a rotação e translação do planeta ditar as regras para seguir adiante. 

Ir ao banheiro é a única programação do momento, porém decide não ir para  ficar sem ter o que fazer. Pensar seria outra saída para o tédio, mas é justamente essa ação que o levaria ainda mais para as profundezas de onde ninguém sabe. Pensa em se levantar, todavia a preguiça puxa para debaixo do cobertor. Que tal fazer a barba de três dias? Depois!, agora não há clima.

A sensação de desconforto quer lhe obrigar a fazer água. Levanta-se e vai. Pensa na genitália feminina ao bater o pé no trilho do box. Se fosse de dia, caracterizaria um palavrão. Gasta trinta segundos da sua preciosa existência para lavar as mãos e enxugá-las. Vê um vulto e percebe que se trata do próprio semblante borrado no espelho. Sua imagem ainda não está com todos os contornos avivados pelos olhos quase fechados.

A toalha está presa por um pegador de roupa evitando produzir raiva toda vez que cai. Sai do banheiro deixando a tampa do sanitário em posição de consultório dentário e volta para a cama que ainda está aquecida deixando-o em dúvidas de quanto tempo ela precisa para esfriar. Só tendo tempo sobrando para pensar nesses detalhes, diz dirigindo-se a uma miniatura de coruja que o observa lembrando-lhe da amiga que o presenteou e que hoje está no hospício.

Ninguém está acordado para lhe escutar, só a coruja, mas isso não o entristece até porque mesmo que houvesse não teria muito o que dizer. Está se tornando especialista em pensar sobre o inútil, já que tudo que é útil está organizado em manuais, enciclopédias, dicionários...

Deita-se e observa que a sua tristeza está indo embora. A solidão aumenta porque não tem costume de conviver com a alegria, eis aí a causa do ciclo permanente de desânimo, pensa já sentindo que não vai ser dessa vez que conhecerá o fundo do poço.

Será que há fila esperando que o dia seja clareado? Vai aguardar... Adormeceu e acorda sem nada para contar do que viu no mundo dos sonhos. Levanta-se para abastecer o estômago e vê uma fruta pedindo para ser devorada exatamente quando o relógio libera sua quebra de jejum de treze horas. Vamos, levante-se da mesa e venha olhar como o dia está nublado! Caminha para a varanda acompanhado por sete garotas em cada braço e outras dizendo abram alas que o Rei dos Reis está chegando. Mentira, isso era o ideal, porém apenas ordens médicas lhe acompanham para não fantasiar em demasia. Sossega ao ver o mundo clareado dando testemunho que não morreu, já que toda manhã precisa se beliscar para ter essa certeza. Será que já houve o hecatombe nuclear enquanto dormia? Anima-se, pois hoje será o primeiro dia depois dele. Imagina que de fato aconteceu e que está sozinho no mundo. Volta para a realidade já debaixo de um semáforo. Estaciona com a sensação desagradável de ter que bater o ponto. A partir daí, deixa suas fantasias fora do prédio e entra dizendo boa tarde para quem não merece, por isso passa a ser avaliado como sendo normalíssimo.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 19.12.2023 -  14h03min.




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