segunda-feira, 16 de novembro de 2020

DO MEU INTERIOR - crônica de Diógenes da Cunha Lima

 


DO MEU INTERIOR

Diogenes da Cunha Lima

 

Você, leitor, certamente, já percebeu o duplo sentido do título deste artigo. Do meu eu e da vida interiorana.

A vida do interior é sem luxos: “Infância pobre, mas linda/ tão linda que mesmo longe/continua em mim ainda”. Vivo esses versos de Vinícius de Moraes. Há muito tempo saí de Nova Cruz, mas a ribeira do Curimataú não saiu de mim.

Em menino, fazíamos os nossos brinquedos: bois de barro, de osso de cardeiro, de barro também assávamos as balas para baladeira. A imaginação criava mundos novos. Uma castanha de caju colocada em pé sobre areia era o castelo que, em jogo, tentava-se derrubar. Um cuspe no chão passava a ser as mães do menino desafiante ou de seu opositor. O desafio era quem pisa na mãe de quem. E a tapa comia.

As mães zelavam pelo comportamento, linguagem, postura e, sobretudo, pela boa escolaridade.

As palavras tinham significado especial e, às vezes, entendimento único. Água quebrada a frieza era menos que morna, suficiente para o banho. Esta sua roupa não é para colocar na baía. Ou seja, só poderia ser usada em momentos solenes, rituais ou festivos.

As cores também são diferenciadas. Roxo é o que os cultos chamam de grená. Vermelho é encarnado. Os pastoris têm torcida: “Do azul e do encarnado, sou do azul até os ossos e não sou mais porque não posso”. Em Portugal, vermelho era proibido na ditadura de Salazar. Havia uma associação com comunista.

Não dê cabimento a ele, que é muito enxerido. Dar cabimento é admitir aproximação, certa intimidade, enxerido é safado, metido a conquistador.

Qual a sua graça? É modo gentil de perguntar o nome.

Os táxis eram chamados de carros-de-praça. Gente da praça é pessoa de cidade grande.

 Toda cidade do interior tem seu doido e seu doidelo. Em Nova Cruz, era Lauro Doido, apelidado Sabugo-Liso, que dirigia um caminhão imaginário e tinha palavras impublicáveis para quem o apelidava. Na minha rua, havia um menino doidelo, que era especialista em fugir de casa. Fugia sem saber para onde, buscava liberdade. Os meninos, precursores do bullying, cantavam a frase musical com ritmo de xote: “Couro nele, dona Rosa, bota ele no Asilo”. Só os filhos de dona Nicinha não participavam do coral. Não que fossem “bonzinhos”. Mas porque havia a ameaça de lavar a língua com sabão.

A linguagem varia em função da região do país, da escolaridade e da classe social a que pertence o falante. Algumas expressões são usadas não apenas no interior, mas em todo o país. O algarismo seis é substituído pela palavra meia (de dúzia). Substituímos o pronome nós pela expressão a gente.

Outras palavras têm sentido restrito e entendimento específico. Alinhado tem o sentido de elegante, bem vestido, bem posto. Acochado significa valente, brabo, destemido. Engembrado, é quem tem corpo deformado, torto.

Os usos e costumes das pequenas cidades do interior integram-se para compor a sinfonia da vivência brasileira.

 

Um comentário:

Comentários com termos vulgares e palavrões, ofensas, serão excluídos. Não se preocupem com erros de português. Patativa do Assaré disse: "É melhor escrever errado a coisa certa, do que escrever certo a coisa errada”