APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


terça-feira, 17 de julho de 2012

ENCONTRO DO INTELECTUAL COM O MATUTO SABIDO - Marcelo Pinheiro


 
O ano era 1985. Sócrates, de tanto ouvir falar de um matuto sabido que habitava o alto sertão da Paraíba, resolveu encontrá-lo. No final de um dia de céu sem nuvens ele chegou à cidadezinha encravada entre rochas e espinhos na microrregião de Catolé do Rocha. O sol, como uma grande brasa desbotada e tímida, se escondia atrás dos últimos cactos do horizonte. Ele enfiou a mão no bolso e pagou alguns bons cruzados ao taxista pela viagem.

Levantou-se ao raiar do dia depois de uma noite mal dormida, tomou o fraco café oferecido pela pequena pousada e se dirigiu à casa do matuto sabido.

Zé de Dona Luzia estava sentado da soleira da porta da frente, rabiscando, sabe-se lá o que, numa folha de um caderno já muito usado, quando foi abordado por Paul:

- Bom dia! É você o sabido Zé de Dona Luzia?

- Sou sim, Zé de Dona Luzia, mas desconheço a tal fama de sabido. Sente-se, o alpendre é todo seu – respondeu o matuto, apontando para um tamborete.  Qual é sua graça e que ventos o trazem aqui?

- Chamo-me Sócrates, sou poeta e crítico literário. Já li os clássicos, Kafka, Dostoievski e Spinoza, dentre muitos outros. Gosto de música clássica, especialmente de Vivaldi, Bach, Handel, Mozart e Beethoven. Já viajei o mundo, conheço Paris, Londres, Pequim e mais uma centena de cidades importantes – disse o intelectual com um ar de superioridade e na certeza de que ao matuto era impossível ser tão sábio quanto ele.

Sem se impressionar muito com tanta erudição, o matuto falou:

- As cidades mais distantes que conheço é Belém e Bayeux.

- Ah, conheço Belém, é uma cidade importante – devolveu o intelectual. Para muitos cristãos foi lá onde nasceu Jesus Cristo. Também já visitei Bayeux, é uma bela cidade francesa situada na região da Baixa Normandia.

- Não, falo de Belém do Brejo do Cruz, aqui mesmo no sertão paraibano e Bayeux da Zona da Mata, perto de João Pessoa. Quanto aos nomes que citou, conheço esse povo todo, mas gosto mesmo é de Guimarães Rosa, Augusto dos Anjos – paraibano como eu -, Patativa do Assaré e Luiz Gonzaga. É que não gosto muito de “gente grandona demais”; geralmente são pessoas menos do que tentam aparentar – explicou Zé, já percebendo o espírito de grandeza e ar de superioridade do intelectual. Aqui mesmo em Jericó tem uns dois ou três metidos a besta. Leram alguns livrinhos e por isso se acham parte de uma elite intelectual dominante. Coisa de gente besta. Para mim, a essência do conhecimento é a humildade: a pessoa saber que de nada sabe é o começo de tudo.

O “intelectual” ficou meio desconfiado e sem explicar a que viera, saiu de fininho, desconfiado. Quando Sócrates tomou certa distância, Zé comentou com Dona Luzia, sua mãe: incrível, só eles não percebem o quanto são ridículos!